Além das Notas: Como o Clima Organizacional Impulsiona o Desempenho Escolar
30/10/2026 - Do porteiro ao professor, o clima da escola também ensina
Por William Asaph Yanraphel
No último dia 28 de outubro foi celebrado o Dia do Servidor Público. Em muitas escolas, a data passou sem cerimônia, entre o toque do sinal e a fila da merenda. Talvez seja justamente por isso que vale olhar para ela com atenção. Quem abre o portão às sete da manhã e quem ensina fração no quadro fazem parte da mesma engrenagem, e boa parte do que um aluno aprende depende de como essas pessoas trabalham juntas.
Desempenho escolar é resultado coletivo, e o que sustenta o coletivo é o clima organizacional, a percepção que cada profissional tem de como é trabalhar naquele lugar. Esse clima não nasce de um cartaz na parede. Ele se forma no dia a dia, nas conversas de corredor, na maneira como uma decisão é comunicada, em quem é ouvido e em quem fica sabendo por terceiros.
É aqui que entra a comunicação organizacional, campo que a pesquisadora brasileira Margarida Kunsch ajudou a consolidar ao defender a comunicação integrada, que reúne as dimensões institucional, interna, administrativa e mercadológica. Para a escola, interessa sobretudo a comunicação interna, que circula em três direções: de cima para baixo, quando a direção informa, de baixo para cima, quando a equipe é escutada, e na horizontal, quando os colegas se coordenam entre si. É comum que a primeira direção funcione melhor que a segunda. O recado desce pelo grupo de mensagens na véspera, mas a dúvida da merendeira e a sugestão do inspetor raramente sobem. Quando o fluxo é de mão única, surge o ruído, que é o boato, o “ouvi dizer”, a decisão entendida pela metade. E o ruído corrói a confiança mais rápido do que qualquer falta de recursos.
A educação tem uma vantagem que muitas organizações precisariam construir: a lei já exige participação. A Constituição prevê a gestão democrática do ensino público, e a LDB determina que os sistemas de ensino garantam a participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico de cada escola. Na prática, o projeto político-pedagógico só vira cultura quando é escrito por muitas mãos e lembrado por todas. O HTPC e o conselho escolar são, antes de tudo, canais de comunicação. Quando se reduz a reunião de avisos, o canal fecha.
Quem estuda aprendizagem sabe por que isso importa. Desde Vygotsky, a psicologia da educação mostra que aprender é um processo mediado pelas relações sociais. O aluno aprende com quem confia, e a criança percebe quando os adultos da escola confiam uns nos outros. É a merendeira quem costuma notar primeiro o estudante que repete o prato porque talvez não coma em casa. É o inspetor quem vê o conflito no pátio antes de ele chegar à sala. Se essas informações não circulam até a coordenação e o professor, a escola desperdiça o seu melhor sistema de alerta.
Os dados mostram o custo quando esse tecido se rompe. Uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP, com mais de 2,5 mil professores da rede municipal de São Paulo, apontou que 63,5% deles se afastaram do trabalho por motivo de saúde em um ano. É o retrato de uma rede só, levantado com apoio sindical, mas o recado vale para qualquer gestor. Uma dissertação da UFMG que cruzou o Indicador de Regularidade do Docente, calculado pelo Inep, com o aprendizado de alunos do 9º ano encontrou associação positiva entre a permanência dos professores e o desempenho. Correlação não prova causa, mas combina com a experiência de quem trabalha em escola. O pano de fundo é exigente. No Saeb de 2023, apenas 16,5% dos estudantes do 9º ano tinham aprendizagem adequada em matemática.
Volto, então, ao servidor público. Existe a ideia de que a estabilidade dispensa a motivação, como se o cargo garantido bastasse para criar vínculo com o trabalho. A estabilidade protege o cargo, e não gera compromisso por si só. O servidor da escola pública lida com famílias em situação de vulnerabilidade, com turmas cheias e com a cobrança por resultados, muitas vezes sem que ninguém lhe pergunte o que precisaria para fazer melhor. Reconhecer esse trabalho, antes de ser discurso de data comemorativa, é prática cotidiana: chamar a pessoa pelo nome, ouvi-la na reunião, devolver uma resposta à sugestão que ela fez, oferecer formação também a quem trabalha na secretaria, na cozinha e na portaria. O servidor que se sente parte do projeto atende melhor o aluno e a família que chegam ao balcão.
Falar em equipe unida e feliz exige cuidado. Felicidade não se decreta em palestra motivacional nem em café da manhã de Dia do Servidor, embora o café ajude. O que a gestão pode fazer é criar condições para que cada pessoa se reconheça como parte do mesmo projeto, com papéis claros, canais de escuta que funcionem e coerência entre o que a direção diz e o que faz. Dois gestos já mudam muito o ambiente. Um é abrir a pauta das reuniões pedagógicas para todos os que trabalham na escola. O outro é devolver à equipe, em linguagem compreensível, o que o Saeb e as avaliações estaduais e municipais revelam, para que a leitura dos números vire decisão coletiva em vez de cobrança vinda de cima.
A nota aparece no boletim no fim do ano, mas o clima que a produziu já estava na escola desde a primeira reunião de fevereiro. Perguntar se a escola sabe o nome, a opinião e a história de quem a faz funcionar é o primeiro passo para melhorar o que as provas medem.
*William Asaph Yanraphel é jornalista formado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado com MBA em Gestão Estratégica Empresarial pela Universidade de Marília (Unimar) e pós-graduando em Gestão e Docência no Ensino Superior pela Unoeste. Com mais de 10 anos de experiência na intersecção entre o setor comercial e a comunicação organizacional, possui sólida trajetória em assessoria de imprensa e marketing. No telejornalismo, atua como repórter, editor de texto e apresentador. Atualmente cursa Letras — português e inglês — e é pós-graduação em psicopedagogia com ênfase em Educação Especial.
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