A ilusão da garantia: por que a democracia exige a nossa presença nas urnas
24/10/2026 - Confira o artigo do jornalista William Asaph Yanraphel.
Nascido em 1995, nunca conheci outro regime. É justamente por isso que preciso lembrar que a democracia exige manutenção.
Por William Asaph Yanraphel
Nasci em 1995, dez anos depois do fim do regime militar e sete depois da promulgação da Constituição. Nunca precisei temer uma urna fechada, um jornal censurado ou uma eleição em que o vencedor já estava escolhido de antemão. Tudo o que sei sobre democracia aprendi vivendo dentro dela, e talvez por isso ela me pareça, em certos domingos, um fato da natureza, como a chuva de verão ou a gravidade.
Mas a democracia não nasce sozinha nem se mantém sozinha. A Constituição que cresceu comigo diz, logo no primeiro artigo, que todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. A frase é curta, quase um lugar-comum de tanto ser repetida, e esconde uma obrigação incômoda: o poder só emana do povo se o povo aparecer para entregá-lo. Quando não aparece, alguém ocupa o espaço.
Os números do primeiro turno deste ano deveriam nos incomodar. No dia 4 de outubro, mais de 33,4 milhões de brasileiros deixaram de votar. A abstenção chegou a 21,08% do eleitorado, o maior índice em um primeiro turno de eleições gerais desde 1998, quando foi de 21,5%. Em 2022 ela havia sido de 20,95%, em 2018, de 20,33%, e em 2014, de 19,39%. A curva sobe devagar, eleição após eleição, sem alarde. Em um país com cerca de 158,7 milhões de eleitores aptos, isso significa que um em cada cinco não participou da escolha.
Seria cômodo explicar tudo pela preguiça ou pelo desencanto, e algum desencanto certamente existe. Mas o brasileiro vive sob uma lei que torna o voto obrigatório entre 18 e 70 anos, e mesmo assim as ausências crescem. A multa por não votar e não justificar é de R$ 3,51 por turno, valor que ninguém confunde com um incentivo. Se a obrigação legal não basta, é porque o que falta não é fiscalização. Falta a convicção de que aquele minuto diante da urna muda alguma coisa.
Muda, e os próprios resultados mostram isso. Nos estados em que o segundo turno para governador foi necessário, quatro das sete disputas tiveram o candidato mais votado a menos de um ponto percentual de vencer já na primeira rodada. No Rio Grande do Norte, a distância entre os dois primeiros foi de 0,7 ponto. Quando uma eleição se decide por margens assim, qualquer abstenção deixa de ser um número abstrato. É a soma de milhares de pessoas que poderiam ter inclinado o resultado e preferiram deixar a decisão para os outros.
Escrevo isto como jornalista e como alguém que em breve estará diante de uma sala de aula. Quem ensina sabe que ninguém aprende a votar por decreto. Aprende comparando propostas, lendo com desconfiança, ouvindo quem pensa diferente e aceitando que a escolha, no fim, é individual e intransferível. Votar bem exige um trabalho anterior ao domingo, e esse trabalho também é parte da democracia. Escolher o candidato que melhor nos representa pressupõe saber o que queremos ser representados.
Não vou dizer em quem votar. Essa decisão pertence a cada leitor, e é exatamente essa liberdade que está em jogo. O que posso dizer é que abster-se também é uma forma de escolha, só que uma escolha que entrega o resultado nas mãos de quem compareceu. Neste domingo, 25 de outubro, haverá segundo turno para presidente e, em seis estados e no Distrito Federal, também para governador. Quem faltou ao primeiro turno pode votar normalmente, desde que o título esteja regular, porque cada turno é uma eleição independente. Quem não puder comparecer precisa justificar a ausência dentro do prazo, pelos canais da Justiça Eleitoral.
Tive a sorte de nascer numa democracia. Não tive o mérito de construí-la, e é por isso que sinto o dever de cuidar dela. Ela segue de pé enquanto muita gente, domingo após domingo, resolve comparecer. Que a nossa geração, que nunca precisou lutar por esse direito, não aprenda a dispensá-lo.
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