Onde termina a aula e começa o palanque?
17/10/2026 - Ensinar como funciona o Estado é dever da escola. Dizer ao aluno em quem votar, nunca.
Por William Asaph Yanraphel
Uma pesquisa do Datafolha que tem circulado neste ano mostra que três em cada quatro brasileiros não conseguem citar o nome de um único senador. Muita gente também não se lembra em quem votou na última eleição. Não é preciso ir longe para entender o que isso revela: boa parte de nós sai da escola sem ter aprendido como o poder funciona.
E, mesmo assim, basta alguém propor que a escola fale de política para a conversa azedar. De um lado estão os que acham que a escola se omite. Do outro, os que temem que a sala de aula vire palanque. As duas preocupações são legítimas, mas muitas vezes os dois lados falam de coisas diferentes sem perceber.
Militância partidária é defender um partido, um candidato, uma plataforma eleitoral. Formação política é outra coisa: aprender o que fazem o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, de onde vem o dinheiro público e como ele é gasto, para que serve a Constituição e como o cidadão pode acompanhar e cobrar. A primeira escolhe um lado por você. A segunda dá a você condições de escolher o seu.
A lei está do lado da formação. A Constituição diz que a educação deve preparar a pessoa para o exercício da cidadania, e a Lei de Diretrizes e Bases repete esse compromisso. Só que a mesma Constituição garante a liberdade de ensinar e de aprender e o pluralismo de ideias. A escola tem, portanto, dois compromissos ao mesmo tempo: formar cidadãos e respeitar a diversidade de opiniões dentro da sala. Quem lê um artigo e ignora o outro acaba defendendo uma escola calada ou uma escola militante.
O Supremo Tribunal Federal já se debruçou sobre o assunto mais de uma vez. Derrubou, por unanimidade, leis municipais no estilo "Escola sem Partido", a mais recente em fevereiro deste ano, por entender que elas ferem a liberdade de ensino e invadem a competência da União. Isso não quer dizer que doutrinação seja aceitável. Quer dizer que proibir de maneira vaga e deixar o professor sob vigilância não resolve o problema e ainda cria outros. O limite contra o proselitismo precisa estar na forma de ensinar, não numa mordaça.
A população parece enxergar isso. Em 2018, o Datafolha perguntou e 71% dos entrevistados se disseram a favor de discutir política na escola. Não sabemos como cada um imaginava essa discussão, e é justamente aí que mora a dificuldade. Ainda assim, o recado é difícil de ignorar: a maioria não quer a escola muda sobre o tema.
Há ainda um motivo bem prático para ensinar esse conteúdo, e ele diz respeito à própria escola. O conselho escolar, o conselho da merenda, o conselho do Fundeb: todos dependem de gente que entenda para onde vai o dinheiro. Quem não sabe ler um orçamento tem dificuldade para cobrar melhorias na estrutura, na merenda ou no salário dos professores. A cobrança vira reclamação, e reclamação sem método costuma ser ignorada.
Então, onde passa a linha? Na minha leitura, ela passa menos pelo tema e mais pelo método. Ensinar a partir de documentos de verdade, como a Constituição, a lei orçamentária da cidade e o regimento da câmara de vereadores, em vez de resumos já mastigados. Usar dados públicos e ensinar o aluno a desconfiar de número sem fonte. Quando houver discordância real, mostrar o melhor argumento de cada lado, e não a caricatura de quem pensa diferente. E nunca dar nota pela opinião do aluno, apenas pela qualidade do que ele consegue argumentar.
Paulo Freire, que costuma ser citado pelos dois lados dessa briga, escreveu na Pedagogia da Autonomia sobre respeitar a autonomia de quem aprende e estimular a leitura crítica do mundo. Freire nunca defendeu uma educação neutra, mas também nunca defendeu que o professor impusesse suas próprias conclusões. Essa diferença, que parece sutil, está no centro da discussão.
Entendo a desconfiança de muitas famílias. A lembrança da disciplina de Educação Moral e Cívica, criada na ditadura militar, pesa até hoje sobre qualquer proposta de civismo na escola. A resposta honesta a essa desconfiança é abrir o jogo: planos de ensino que os pais possam ler, materiais acessíveis, métodos que qualquer um possa conferir.
Fico com um teste que me parece justo. Se o aluno termina o ano sabendo como se faz um orçamento, quem fiscaliza o dinheiro público e como uma lei é aprovada, mas sem ter ideia de em quem o professor vota, a escola fez o que a Constituição pede. Se acontece o contrário, falhou duas vezes.
E você, o que viu na escola dos seus filhos, ou na que frequentou? Aula ou palanque?
*William Asaph Yanraphel é jornalista formado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado com MBA em Gestão Estratégica Empresarial pela Universidade de Marília (Unimar) e pós-graduando em Gestão e Docência no Ensino Superior pela Unoeste. Com mais de 10 anos de experiência na intersecção entre o setor comercial e a comunicação organizacional, possui sólida trajetória em assessoria de imprensa e marketing. No telejornalismo, atua como repórter, editor de texto e apresentador. Atualmente cursa Letras — português e inglês — e é pós-graduação em psicopedagogia com ênfase em Educação Especial.
24ºC - 17ºC

