Tecnologia com propósito: o que a gestão precisa decidir antes de levar a IA para a escola
10/10/2026 - Confira o artigo do jornalista William Asaph Yanraphel.
Na sala dos professores, plano de aula, relatório descritivo, adaptação de atividade e ata disputam um tempo que quase sempre falta. A inteligência artificial generativa entrou nessa rotina antes de a escola decidir o que pensar dela. A pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br, mostrou que 43% dos professores já a usavam para preparar conteúdos didáticos e que 70% dos alunos do ensino médio recorriam a ela em pesquisas escolares.
A edição seguinte olhou para quem dirige as escolas. Divulgada em agosto, a TIC Educação 2025 revelou que 53% dos gestores usam IA generativa em tarefas pedagógicas, administrativas ou financeiras. Só 22% afirmam que a escola tem um guia de orientação sobre o assunto. A ferramenta chegou. A regra, não.
Empresa séria não adota tecnologia sem definir quem usa, para quê e com quais dados. A escola pública precisa seguir o mesmo caminho, com orçamento mais curto e uma responsabilidade maior. A governança digital começa pelo que a escola já tem: ferramentas gratuitas, tempo coletivo de formação e uma coordenação pedagógica atuante.
O primeiro passo é usar a HTPC como oficina. Em vez de palestra genérica, a coordenação pode reservar encontros para que os professores testem pedidos reais: um esboço de plano alinhado à BNCC, um banco de questões, a minuta de um relatório. A máquina escreve o rascunho; o professor revisa, corrige e assina. O espaço para isso existe e é necessário: em 2024, apenas 19% dos alunos disseram que seus professores conversaram com eles sobre o uso de IA nas atividades da escola, e 33% aprenderam a identificar erros e vieses nesse tipo de conteúdo.
O segundo passo é pôr a tecnologia a serviço da inclusão. Quem já adaptou um texto para um aluno com necessidades educacionais especiais ou com defasagem de leitura sabe quanto tempo isso consome. A IA pode reescrever o mesmo conteúdo em níveis graduais, sugerir rotinas visuais e propor atividades alternativas. Ela não substitui o profissional do atendimento educacional especializado, mas dá repertório ao professor que, muitas vezes, está sozinho diante da turma. As adaptações devem passar pelo olhar de quem conhece o estudante.
O terceiro passo é ler melhor os próprios dados. Os resultados de avaliações externas, como o Saresp, costumam chegar em relatórios longos que a rotina da escola não permite esmiuçar. Com planilhas gratuitas e recursos de análise, a equipe consegue agrupar os alunos por nível de proficiência e desenhar o reforço e a recomposição da aprendizagem para quem realmente precisa deles.
Nada disso se sustenta sem cuidados. A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) exige que o tratamento de dados de crianças e adolescentes seja feito em seu melhor interesse. Na prática, a escola precisa de um Guia de Conduta Digital de uma página: nada de nomes completos, fotos, notas ou laudos de alunos em plataformas externas; uso de informações anonimizadas; orientação clara sobre plágio e sobre a leitura crítica do que a IA responde. Proibir sem orientar tem pouco efeito: segundo a TIC Educação 2025, apenas 37% das escolas permitem o uso de IA pelos alunos em atividades educacionais, mas, em 2024, sete em cada dez estudantes do ensino médio já a usavam.
Há ainda a equidade. Muitos estudantes têm pouca ou nenhuma conexão em casa. Se a IA entrar na rotina sem esse cuidado, a escola amplia a distância entre quem tem acesso e quem não tem. O uso deve ocorrer principalmente dentro da escola, e as tarefas para casa precisam continuar disponíveis em papel.
Tecnologia não corrige falha de gestão; ela mostra rapidamente onde a falha está. Na rede pública, inovar é saber para que serve cada ferramenta e decidir isso com a equipe antes de ligar o computador. O gestor que responde a essa pergunta já saiu na frente da maioria.
*William Asaph Yanraphel é jornalista formado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado com MBA em Gestão Estratégica Empresarial pela Universidade de Marília (Unimar) e pós-graduando em Gestão e Docência no Ensino Superior pela Unoeste. Com mais de 10 anos de experiência na intersecção entre o setor comercial e a comunicação organizacional, possui sólida trajetória em assessoria de imprensa e marketing. No telejornalismo, atua como repórter, editor de texto e apresentador. Atualmente cursa Letras — português e inglês — e é pós-graduação em psicopedagogia com ênfase em Educação Especial.
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