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Escolas brasileiras perdem um terço do tempo do professor com burocracia e bagunça

19/09/2026 - Confira o artigo do jornalista William Asaph Yanraphel.


Escolas brasileiras perdem um terço do tempo do professor com burocracia e bagunça

Converse com qualquer professor da educação básica brasileira e a queixa aparece antes mesmo do salário: não sobra tempo. Não sobra tempo para planejar, para corrigir com calma, para sentar com aquele aluno específico que claramente não está acompanhando. O dia se vai em chamada, formulário, ata, plano reescrito pela quarta vez, sala que não silencia.

Há um paradoxo aí. Nunca se produziu tanta informação sobre o estudante brasileiro. Indicadores de aprendizagem, registros de frequência, relatórios de conselho de classe, mapeamentos socioemocionais. E nunca foi tão difícil transformar esse material em decisão pedagógica. O dado existe. O tempo para lê-lo, não.

Os números confirmam a percepção de quem está em sala. A Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), da OCDE, divulgada no Brasil pela Agência Brasil, mostra que o professor brasileiro gasta em média 21% do tempo de aula apenas para manter a ordem. Nos países-membros da organização, a média é de 15%. Quase metade dos docentes brasileiros, 44%, afirma perder tempo relevante com interrupções dos próprios alunos.

Some-se a isso a carga administrativa. Levantamentos da mesma pesquisa, destacados pelo Sindicato dos Professores do Distrito Federal, indicam que cerca de 12% da jornada é consumida por serviços administrativos. Sobram dois terços do tempo para o que deveria ser o centro do ofício: ensinar. É a pior proporção entre os países avaliados, num cenário em que a média internacional se aproxima de 80%.

Como chegamos até aqui

Vale entender de onde vem esse acúmulo, porque ele não caiu do céu.

Nas últimas três décadas, o Brasil fez uma escolha correta e cara: universalizar o acesso à escola. A escola recebeu todo mundo. E, ao receber todo mundo, passou a receber junto tudo aquilo que antes se distribuía por outras instituições. Alimentação, saúde bucal, busca ativa de evasão, acompanhamento socioemocional, mediação de conflitos familiares, inclusão de estudantes com deficiência, programas federais com prestação de contas própria. Cada política pública nova chegou acompanhada de um formulário.

O que não cresceu na mesma proporção foi a estrutura para administrar esse volume. A escola brasileira ganhou funções de hospital, de assistência social e de centro comunitário sem ganhar quadro administrativo compatível. Quem absorveu a diferença foi o professor e o coordenador pedagógico, nas brechas da jornada.

O legislador previu o problema. A Lei nº 11.738/2008, a Lei do Piso, determina que no máximo dois terços da jornada docente sejam destinados à interação com os estudantes, reservando um terço para planejamento, correção, reuniões e formação continuada. O Supremo Tribunal Federal julgou o dispositivo constitucional em 2011, ao analisar a ADI 4.167.

Na prática, o terço frequentemente não existe. Sindicatos de várias regiões denunciam redes que descumprem a regra ou que a esvaziam por dentro, fragmentando o tempo de planejamento em intervalos de dez minutos entre aulas — a chamada minutagem — de modo que o professor tecnicamente tem hora-atividade, mas nunca um bloco contínuo em que consiga efetivamente planejar alguma coisa.

Ou seja: o país tem uma lei que garante tempo de trabalho intelectual ao professor, tem um volume crescente de demandas administrativas e tem uma organização de rotina que não conseguiu conciliar as duas coisas. É nesse vão que o tempo desaparece.

Gestão não é mercantilização

Sei que a palavra "gestão" provoca desconfiança em boa parte da comunidade escolar. E a desconfiança tem fundamento histórico. Tratar o aluno como cliente, a nota como meta de produção e o professor como executor de planilha seria empobrecer exatamente aquilo que a educação tem de mais humano.

Mas existe uma diferença entre importar a lógica do mercado e importar suas ferramentas. Padronizar um modelo de registro de aula não transforma escola em fábrica. Priorizar tarefas num quadro visual não mercantiliza nada. Definir cronograma e responsáveis antes de montar uma feira de ciências apenas impede que a feira seja improvisada na véspera, como quase sempre é.

O que essas práticas fazem é evitar retrabalho. Quando a escola tem modelos únicos de atas, comunicados e registros de aula, o professor para de reinventar documentos a cada bimestre. Quando existe um quadro de acompanhamento visível para toda a equipe, ninguém refaz o material que o colega da sala ao lado já produziu. É pouco glamouroso e é enormemente eficaz.

Nada disso substitui formação continuada ou valorização salarial. A própria Talis registra que apenas 14% dos professores brasileiros acreditam que a profissão é valorizada pela sociedade, e nenhum fluxograma resolve esse problema. Mas o processo bem desenhado devolve ao docente o recurso mais escasso da sua rotina, que é tempo de planejamento e de escuta.

Do acúmulo à inteligência de dados

Se o tempo é o primeiro gargalo, a informação dispersa é o segundo. Diários de classe, avaliações internas e relatórios individuais costumam viver em sistemas que não conversam entre si. O aluno, que deveria ser lido como trajetória, acaba lido como recorte de bimestre.

Os resultados do Saeb 2025, divulgados pelo Inep e pelo Ministério da Educação, mostram por que isso pesa. A avaliação alcançou 5,9 milhões de estudantes em mais de 73 mil escolas. O país recuperou o nível de aprendizagem anterior à pandemia, uma conquista real que merece ser dita com todas as letras. Mas a análise do Todos Pela Educação lembra que essa recuperação aconteceu em patamares ainda muito baixos. Ao fim do ensino fundamental na rede pública, 38,3% dos estudantes atingiram nível adequado em Língua Portuguesa. Em Matemática, 18,8%.

Ao comentar os dados, a coordenadora de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, Natália Fregonesi, apontou o que está por trás desses índices: muitos estudantes chegam à última etapa da educação básica carregando defasagens acumuladas ao longo de anos, o que torna urgente priorizar a aprendizagem desde o início do fundamental.

Só que identificar defasagem cedo depende de conseguir enxergá-la. E enxergar depende de organização. Cruzar notas, frequência e registros pedagógicos permite sinalizar a necessidade de intervenção psicopedagógica antes que a dificuldade vire buraco intransponível. Centralizar o histórico do aluno garante que a troca de professor, de turma ou de escola não apague o percurso já construído. Quem já recebeu uma turma nova em fevereiro sem nenhuma informação sobre os alunos sabe exatamente o custo dessa perda.

O PDCA chega à sala dos professores

Medir se a intervenção funcionou é a etapa que a escola brasileira mais costuma pular. Faz-se o projeto, monta-se o evento, aplica-se a metodologia nova. E raramente alguém volta, meses depois, para verificar se aquilo mudou alguma coisa.

É aqui que uma ferramenta nascida na indústria vem ocupando espaço no setor público: o ciclo PDCA, sigla em inglês para planejar, executar, verificar e agir. O Instituto Unibanco, em parceria com a Escola Nacional de Administração Pública, oferece formação específica em PDCA aplicado à educação básica para gestores de escolas e secretarias. O Programa de Ensino Integral do estado de São Paulo incorpora o mesmo ciclo à sua metodologia, associando-o à ideia de escola como projeto coletivo, compartilhado entre estudantes, famílias, educadores e comunidade.

A experiência brasileira também mostra onde o método trava. Estudo publicado na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação sobre a aplicação do PDCA em escolas públicas de Fortaleza identificou avanços na articulação entre avaliação, gestão e aprendizagem, mas registrou resistência cultural e limitações operacionais na implementação. A lição me parece clara: a ferramenta de gestão não cria liderança pedagógica. Onde existe liderança, ela potencializa. Onde não existe, vira mais um formulário na pilha.

Resta a pergunta sobre o que se mede. Avaliar uma metodologia só pela nota formal deixa de fora boa parte do que determina a permanência do estudante na escola. Pesquisas do Instituto Ayrton Senna indicam que jovens com competências socioemocionais mais desenvolvidas têm 40% mais chance de concluir o ensino médio sem interrupção, além de apresentarem menor absenteísmo e melhor desempenho acadêmico. Engajamento e assiduidade, nesse sentido, são indicadores tão pedagógicos quanto a média bimestral. Talvez mais.

Um caminho possível

Se o diagnóstico é razoavelmente consensual, a pergunta prática é por onde uma escola começa. Não por uma reforma ampla, que costuma morrer no primeiro bimestre. Por algo pequeno o bastante para caber na realidade da equipe.

Comece por um único processo. Escolha a tarefa que mais consome tempo coletivo e que menos exige criatividade. Costuma ser o registro de aula, o preenchimento de atas ou a comunicação com as famílias. Padronize apenas essa. Um modelo único, acordado com os professores, testado por um bimestre. Se funcionar, avance para a próxima. Escola que tenta padronizar tudo ao mesmo tempo padroniza nada.

Proteja o terço da jornada em blocos. De nada adianta cumprir a Lei do Piso no papel se o tempo de planejamento chega fatiado em sobras de dez minutos. Organizar o quadro de horários de modo que a hora-atividade se concentre em blocos contínuos, de preferência coincidentes entre professores da mesma área, é uma decisão de gestão que não custa orçamento e muda a qualidade do que se produz nesse tempo.

Crie um painel simples, não um sistema caro. Uma planilha compartilhada com nome, frequência, notas por bimestre e observações pedagógicas já permite cruzar informação e identificar padrões. O salto de qualidade não está na tecnologia, está em ter todos os dados no mesmo lugar e em alguém com a responsabilidade formal de olhar para eles periodicamente.

Defina antes o que vai ser considerado sucesso. Todo projeto interdisciplinar, feira ou nova metodologia deveria começar com uma frase escrita: o que esperamos que mude e como saberemos. Sem isso, a avaliação vira impressão pessoal do coordenador. Com isso, vira conversa baseada em evidência.

Reserve reunião para verificar, não só para planejar. A etapa do "checar" é a que mais se perde no cotidiano escolar. Uma reunião por bimestre dedicada exclusivamente a revisar o que foi combinado no bimestre anterior já instala o ciclo de melhoria contínua sem que ninguém precise aprender a sigla.

Formalize a passagem de bastão. Ao final do ano, cada professor registra, em ficha curta e padronizada, o essencial sobre cada aluno que segue para a etapa seguinte. Quinze minutos por turma em dezembro economizam meses de redescoberta em fevereiro.

Nenhuma dessas medidas depende de verba extra, de plataforma comprada ou de autorização da secretaria. Dependem de decisão da equipe gestora e de acordo com os professores. E é exatamente por isso que são viáveis em escolas que não têm nada além do que já têm.

O que está realmente em jogo

A inovação educacional que interessa não é a mais cara nem a mais tecnológica. É a que devolve tempo e clareza a quem está diante da sala de aula.

Uma escola que padroniza o que é repetitivo, organiza o que está disperso e verifica o que de fato funcionou não se torna menos humana por isso. Torna-se mais disponível. Estrutura bem feita não engessa a sensibilidade pedagógica: libera o educador para exercer aquilo que nenhuma planilha, nenhum indicador e nenhum ciclo de melhoria contínua vão substituir, que é o encontro entre quem ensina e quem aprende.

E esse encontro, hoje, está sendo roubado meia hora por vez, em formulário e em ata.

*William Asaph Yanraphel é jornalista formado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado com MBA em Gestão Estratégica Empresarial pela Universidade de Marília (Unimar) e pós-graduando em Gestão e Docência no Ensino Superior pela Unoeste. Com mais de 10 anos de experiência na intersecção entre o setor comercial e a comunicação organizacional, possui sólida trajetória em assessoria de imprensa e marketing. No telejornalismo, atua como repórter, editor de texto e apresentador. Atualmente cursa Letras — português e inglês — e é pós-graduação em psicopedagogia com ênfase em Educação Especial.



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