Por que gestão de pessoas e educação especial falam a mesma língua
07/08/2026 - Confira o artigo do jornalista William Asaph Yanraphel.
Sou jornalista há quase uma década. Nesse tempo, boa parte da minha produção se voltou para a gestão: depois de um MBA em gestão estratégica empresarial, converti em coluna semanal aquilo que via nas empresas — modelos de liderança que envelhecem mal, culturas organizacionais que prometem inovação e entregam burocracia, sistemas de avaliação que classificam pessoas por cargo e tempo de casa em vez de competência real. Foi um caminho natural, quase óbvio, para quem passou a carreira circulando entre redações e salas de reunião.
O que não era tão óbvio — nem para mim, durante boa parte desse tempo — é que a pergunta que sempre me moveu por trás dessas pautas nunca foi exatamente sobre empresas. Era sobre pessoas sendo vistas, ou não, pelos sistemas que deveriam servi-las. E há alguns anos, entendi que existe um lugar onde essa pergunta é ainda mais urgente do que em qualquer conselho administrativo: a escola.
Hoje curso Letras, que concluo no próximo ano, e uma pós-graduação em psicopedagogia com ênfase em educação especial. Não é uma ruptura com o que escrevi até aqui — é a mesma pergunta, feita em outro vocabulário. Por isso, a partir de hoje, esta coluna também vai abrir espaço para a educação, especialmente para a educação inclusiva.
O mesmo problema, dois sistemas
Quando escrevi sobre gestão por competência, o argumento era simples: empresas que avaliam funcionários por cargo ou tempo de casa, em vez do que eles de fato entregam, desperdiçam talento e adoecem suas culturas. Volto a esse argumento agora, aplicado a outro sistema. Escolas que tratam turmas inclusivas como um padrão único — o mesmo currículo, o mesmo ritmo, a mesma prova para todos — cometem o mesmo erro estrutural: avaliam o aluno por um padrão externo a ele, não pelo que ele efetivamente consegue construir a partir de onde está.
A diferença é que, na empresa, esse erro custa produtividade. Na escola, custa trajetórias inteiras.
O que os números mostram
E os números, aqui, contam uma história em dois tempos — um de avanço real, outro de dívida ainda enorme.
O avanço: o Censo Escolar 2024, divulgado pelo Inep, registrou 2,1 milhões de matrículas na educação especial no Brasil, um salto de quase 60% em relação a 2020. Do total de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades, mais de 92% já estão matriculados em escolas regulares — não mais segregados em instituições exclusivamente especializadas. Na educação infantil, esse movimento é ainda mais expressivo: o crescimento de matrículas passou de 500% em pouco mais de uma década, com a quase totalidade das crianças hoje em classes comuns.
A dívida: o mesmo levantamento mostra que só cerca de 6% dos professores da educação básica têm formação específica em educação especial — um salto em relação aos 4,4% de dez anos atrás, mas, segundo estudo do Instituto Rodrigo Mendes, insuficiente para formar todo o corpo docente do país no ritmo atual em menos de quatro séculos. No caso específico dos profissionais que atuam diretamente no Atendimento Educacional Especializado (AEE) — o suporte pedagógico especializado a que todo aluno da educação especial tem direito por lei —, a formação continuada em educação especial chega a apenas parte dos professores em algumas regiões do país, e a infraestrutura de apoio, como salas de recursos multifuncionais, ainda cobre uma minoria das escolas com esses alunos matriculados.
Em resumo: o Brasil abriu a porta da escola regular para milhões de crianças com deficiência. O que ainda não fez, na mesma velocidade, foi preparar quem está do outro lado da sala para recebê-las de verdade.
Por que isso interessa a quem lê pensando em gestão
Se você chegou até aqui como leitor da coluna de gestão, pode estar se perguntando o que isso tem a ver com sua empresa. A resposta é: mais do que parece. Toda organização hoje lida com inclusão, neurodivergência e necessidade de adaptação individual — na contratação, na liderança, no desenho de processos. A escola só enfrenta esse desafio primeiro, e em escala muito maior. Entender como a educação está lidando (bem e mal) com a inclusão é, também, um exercício antecipado sobre para onde a gestão de pessoas está caminhando.
O que vem a seguir
Nas próximas semanas, pretendo trazer essa mesma lente para temas como a formação de professores frente à explosão de diagnósticos de autismo, o papel da tecnologia assistiva na alfabetização e os limites — e possibilidades — de escolas que ainda tratam inclusão como item de checklist em vez de projeto pedagógico. A coluna continua sendo, no fundo, sobre a mesma coisa de sempre: sistemas que só funcionam quando enxergam as pessoas que deveriam servir. Só que agora, também, a partir da sala de aula.
William Asaph Yanraphel é jornalista formado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado com MBA em Gestão Estratégica Empresarial pela Universidade de Marília (Unimar) e pós-graduando em Gestão e Docência no Ensino Superior pela Unoeste. Com mais de 10 anos de experiência na intersecção entre o setor comercial e a comunicação organizacional, possui sólida trajetória em assessoria de imprensa e marketing. No telejornalismo, atua como repórter, editor de texto e apresentador. Atualmente cursa Letras — português e inglês — e é pós-graduação em psicopedagogia com ênfase em Educação Especial.
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