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A Cultura do Imediatismo: O custo oculto para a produtividade e a saúde mental

24/07/2026 - Confira o artigo do jornalista William Asaph Yanraphel


A Cultura do Imediatismo: O custo oculto para a produtividade e a saúde mental

Há um fio invisível ligando a farmácia ao escritório. De um lado, os agonistas de GLP-1 — Ozempic, Wegovy, Mounjaro — que transformaram a perda de peso em uma questão de semanas, não de anos de disciplina alimentar. Do outro, as ferramentas de inteligência artificial generativa, que prometem entregar em segundos um relatório, uma análise ou uma campanha que antes exigiam dias de trabalho qualificado. São produtos de naturezas completamente diferentes, mas compartilham uma mesma promessa retórica: a de que o esforço prolongado pode ser substituído por uma solução rápida, quase mágica. Essa promessa tem um nome na análise do discurso: a narrativa do resultado imediato. E ela está silenciosamente redesenhando a cultura das organizações brasileiras.

Não se trata de condenar os medicamentos ou a tecnologia em si. O ponto de atenção é outro: o vocabulário que os envolve — "transformação em poucas semanas", "resultado agora", "produtividade sem esforço" — vem sendo importado para dentro das empresas como parâmetro de desempenho humano. Se a caneta emagrece o corpo em tempo recorde e o prompt escreve o texto em segundos, por que o profissional não consegue entregar tudo, sempre, imediatamente? A pergunta raramente é feita em voz alta em uma reunião de diretoria, mas ela está implícita em metas cada vez mais curtas, em ciclos de entrega cada vez mais apertados e em uma impaciência crescente com qualquer processo que ainda dependa do tempo humano.

A gramática do atalho

Um estudo publicado na revista científica Obesity, conduzido por pesquisadoras da Faculdade de Saúde Pública da USP, já chamava atenção para o fato de que o debate sobre os medicamentos de emagrecimento não pode ser reduzido à métrica da balança: envolve também dimensões psicológicas, comportamentais e sociopolíticas de uma sociedade obcecada por resultados rápidos. O mesmo raciocínio se aplica ao ambiente corporativo diante da inteligência artificial. Segundo a pesquisa Confiança, Atitudes e Uso de Inteligência Artificial, conduzida pela KPMG em parceria com a Universidade de Melbourne, a maior parte dos trabalhadores brasileiros já utiliza IA no trabalho e relata ganhos de eficiência — mas o mesmo levantamento aponta que a confiança na tecnologia segue frágil, especialmente quanto aos seus efeitos sobre a rotina e a saúde de quem a opera.

O que uma leitura discursiva revela é que ambos os fenômenos — a caneta e o algoritmo — são apresentados ao público como soluções que dispensam o processo. E quando o processo é dispensado na propaganda, ele passa a ser cobrado como dispensável também na prática do trabalho. A liderança, pressionada por metas trimestrais e por conselhos que leem estudos sobre ganhos de produtividade prometidos pela IA, tende a transferir essa mesma urgência para as equipes, sem necessariamente entender — ou comunicar — que tecnologia e saúde mental caminham em ritmos diferentes.

O preço no corpo e na mente

Os números brasileiros já eram preocupantes antes da aceleração tecnológica recente. Levantamentos da International Stress Management Association do Brasil (ISMA-BR) e da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) apontam o país como o segundo colocado mundial em prevalência de burnout, atrás apenas do Japão, com cerca de 30% dos trabalhadores apresentando algum grau da síndrome — reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional desde 2022. Dados do Ministério da Previdência Social e do INSS, por sua vez, mostraram mais de 470 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais somente em 2024.

Foi justamente esse cenário que levou o Ministério do Trabalho e Emprego a atualizar a Norma Regulamentadora nº 1, incluindo pela primeira vez os chamados riscos psicossociais — sobrecarga, metas inalcançáveis, assédio moral, ausência de suporte da liderança — no Programa de Gerenciamento de Riscos que toda empresa brasileira é obrigada a manter. A partir de maio de 2026, deixa de ser apenas uma boa prática de gestão: passa a ser exigência legal tratar o esgotamento psíquico com o mesmo rigor técnico hoje dedicado a um risco ergonômico ou químico. É um reconhecimento tardio, mas necessário, de que o desgaste mental no trabalho tem causa organizacional, não apenas individual.

Liderança sob pressão dupla

A chegada da inteligência artificial não aliviou esse quadro — pelo contrário, adicionou uma camada de pressão sobre lideranças que já enfrentavam índices alarmantes de ansiedade. O estudo global ROI do Bem-Estar 2026, conduzido pela Wellhub com mais de 1.500 líderes de recursos humanos em dez países, mostra que as empresas brasileiras são as que mais relatam temer a perda de profissionais com habilidades ligadas à inteligência artificial — 74% dos respondentes no país, contra 62% na média global. No mesmo levantamento, 89% dos líderes de RH brasileiros afirmam que questões de saúde mental já elevam os custos organizacionais, o maior índice entre os países pesquisados.

Some-se a isso um dado incômodo, mas raramente citado com o devido peso: o Brasil também lidera índices globais de ansiedade segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde. Ou seja, a pressão por adaptação tecnológica recai sobre uma força de trabalho que já parte de um patamar elevado de sofrimento psíquico. O resultado é previsível para quem estuda comportamento organizacional: equipes que operam no limite entregam mais erros, mais retrabalho e mais rotatividade — o oposto do ganho de produtividade que a tecnologia deveria proporcionar.

Comunicação interna e o papel da liderança

É neste ponto que a comunicação interna deixa de ser um detalhe de RH e se torna instrumento estratégico de sustentabilidade corporativa. Empresas que comunicam a adoção de IA como substituição de esforço humano — em vez de complemento a ele — alimentam, na prática, a mesma narrativa de atalho que adoece. Comunicar com clareza os limites da tecnologia, os prazos realistas de adaptação das equipes e os canais de escuta ativa para sinais de esgotamento não é discurso motivacional vazio: é gestão de risco, agora também prevista em norma regulamentadora.

Organizações que já avançam nesse debate têm adotado três frentes concretas: mapeamento de riscos psicossociais como parte do planejamento estratégico, e não apenas do departamento jurídico; treinamento de lideranças para reconhecer sinais de sobrecarga antes que se transformem em afastamento; e revisão do vocabulário interno de metas, evitando a linguagem de "resultado imediato" importada do marketing farmacêutico e tecnológico. Nenhuma dessas medidas é cara. Todas exigem, no entanto, uma mudança de mentalidade que ainda engatinha na maior parte das empresas brasileiras.

A cultura do imediatismo não nasceu dentro das organizações — ela foi importada de fora, de promessas comerciais que vendem transformação sem tempo. Mas é dentro das organizações que seu custo está sendo pago, em licenças médicas, em rotatividade e em uma geração de líderes que aprendeu a temer o próprio ritmo humano. Reconhecer essa origem discursiva é o primeiro passo para que a gestão de pessoas deixe de correr atrás do algoritmo e volte a correr no tempo das pessoas que ela deveria, antes de tudo, cuidar.

William Asaph Yanraphel é jornalista formado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado com MBA em Gestão Estratégica Empresarial pela Universidade de Marília (Unimar) e pós-graduando em Gestão e Docência no Ensino Superior pela Unoeste. Com mais de 10 anos de experiência na intersecção entre o setor comercial e a comunicação organizacional, possui sólida trajetória em assessoria de imprensa e marketing. No telejornalismo, atua como repórter, editor de texto e apresentador.

 



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