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A era em que falar com uma pessoa de verdade virou artigo de luxo

17/07/2026 - 'A automação resolveu a pressa do consumidor, mas deixou um vazio emocional', por Willian Asaph


A era em que falar com uma pessoa de verdade virou artigo de luxo

Eram 22h37 de uma terça-feira qualquer quando percebi, no extrato do cartão, uma cobrança duplicada de uma assinatura que eu já tinha cancelado. Abri o aplicativo do banco, cliquei em "falar conosco" e fui recebido por uma janelinha simpática, com um nome fofo e um emoji de mãozinha acenando. Digitei o problema. A resposta veio em menos de dois segundos: um link para uma central de ajuda que eu já tinha visitado. Reformulei a pergunta. Veio outro link, agora para um vídeo de dois minutos sobre "como entender sua fatura". Insisti pela quarta vez, já sem paciência, e o robô, impassível, sugeriu que eu tentasse "reiniciar o aplicativo".

Não existe reinício para a irritação de quem só queria ser ouvido por alguém que entendesse o que estava sendo dito.

Essa cena, ou uma parecida com ela, provavelmente já aconteceu com você. Pode ter sido no banco, na operadora de telefonia, no aplicativo de entrega ou naquele supermercado novo, todo em autoatendimento, onde você passa os produtos, ouve um bipe, embala as compras sozinho e sai da loja sem ter trocado uma palavra com ninguém. É rápido. É eficiente. E, para muita gente, é também profundamente solitário.

A conveniência virou obrigação, não diferencial

Durante anos, empresas venderam a promessa de que a tecnologia nos traria mais tempo livre e mais qualidade de atendimento. Em parte, isso se cumpriu: hoje resolvemos em minutos tarefas que antes levavam dias, como pagar uma conta, rastrear uma encomenda ou remarcar uma consulta. A automação e a inteligência artificial otimizaram processos que, sejamos justos, ninguém sentia falta de fazer manualmente.

O problema é que essa eficiência, que deveria ser um complemento à experiência humana, virou o produto principal — e o vínculo emocional entre marca e cliente foi empurrado para escanteio.

É aqui que entra o conceito de Economia da Experiência, discutido há décadas por especialistas em estratégia de marca, mas que ganhou urgência renovada com a chegada da IA generativa. A ideia central é simples: conveniência é higiene básica. Todo concorrente sério do seu setor já entrega rapidez, app funcional e atendimento automatizado 24 horas. Isso não diferencia mais ninguém — apenas evita que o cliente vá embora imediatamente.

O que gera diferenciação de verdade, o que constrói o que o mercado chama de Customer Lifetime Value (o valor que um cliente gera para a empresa ao longo de toda a relação, e não apenas na primeira compra), é a conexão emocional. É a sensação de ser reconhecido, de ter seu problema tratado como único, de sentir que do outro lado existe alguém — não um roteiro de respostas prontas otimizado para reduzir o tempo médio de atendimento.

Quando uma marca é lembrada com carinho, não é pela velocidade do chatbot. É pelo funcionário que resolveu algo fora do script, que teve paciência, que demonstrou que enxergava uma pessoa, não um número de protocolo.

Quando falar com um humano virou artigo de luxo

Há um fenômeno curioso acontecendo no topo da pirâmide de consumo, e ele diz muito sobre para onde estamos caminhando: marcas premium estão cobrando mais, explicitamente, para oferecer o que antes era o padrão de qualquer atendimento — uma pessoa de verdade do outro lado da linha.

Bancos privados oferecem gerentes exclusivos. Companhias aéreas vendem passagens mais caras com a promessa de um atendimento prioritário feito por seres humanos, não por urnas de autoatendimento. Marcas de luxo mantêm vendedores que conhecem o cliente pelo nome, lembram do aniversário, sugerem produtos com base em conversas anteriores — não em algoritmos de recomendação.

Chamo isso de “premiumização do humano”. O que antes era a experiência padrão de qualquer relação comercial — ser atendido por gente — se tornou um adicional pago, reservado a quem pode arcar com esse custo. Enquanto isso, a maioria dos consumidores foi empurrada para filas de chat, menus de voz automatizados e telas de autoatendimento, sob o argumento (nem sempre falso) de que "é mais prático para você".

É prático, sim. Mas também é frio. E o consumidor, mesmo sem conseguir nomear o conceito, sente essa frieza. Sente que está sendo processado, não atendido.

O que isso significa para o empresário local

Aqui está o ponto que interessa diretamente ao pequeno e ao médio empresário, aquele que administra a padaria de bairro, a clínica, a loja de roupas, a oficina, o escritório de contabilidade: você não vai vencer a batalha da escala. As grandes redes têm capital, tecnologia e volume que você jamais vai igualar. Tentar competir com elas nesse terreno — investindo pesado em automação para parecer "moderno" — é lutar a briga errada, no campo errado.

A vantagem competitiva real da pequena e média empresa está exatamente naquilo que a tecnologia, por mais sofisticada que seja, ainda não conseguiu replicar com alma: o relacionamento. O dono que reconhece o cliente pelo nome. O olho no olho na hora de resolver um problema. A memória de que aquele senhor prefere o corte de cabelo um pouco mais curto nas laterais, ou que aquela cliente está passando por um momento difícil e talvez precise só de um pouco mais de paciência.

Isso não é nostalgia nem resistência à modernização — é estratégia. Automatize o que for repetitivo, sim. Use tecnologia para ganhar tempo, sim. Mas proteja, com unhas e dentes, o espaço onde o humano ainda faz diferença. Porque, no fim, quando todo mundo tiver o mesmo chatbot, a mesma velocidade e o mesmo autoatendimento, o que vai fazer o cliente escolher você — e voltar — será a única coisa que a inteligência artificial ainda não sabe fingir direito: se importar de verdade.

William Asaph Yanraphel é jornalista formado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado com MBA em Gestão Estratégica Empresarial pela Universidade de Marília (Unimar) e pós-graduando em Gestão e Docência no Ensino Superior pela Unoeste. Com mais de 10 anos de experiência na intersecção entre o setor comercial e a comunicação organizacional, possui sólida trajetória em assessoria de imprensa e marketing. No telejornalismo, atua como repórter, editor de texto e apresentador.

 



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