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QUASE TODOS

07/07/2026 - Confira o artigo do advogado Vicentonio Regis do Nascimento Silva


QUASE TODOS

E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não. (Deuteronômio, capítulo 8, versículo 2).

 

Como se constrói uma família? A multiplicidade das respostas nos leva a enfrentar trajetos diversos, contraditórios e complexos. Uma das possíveis respostas origina-se d’OS SATYROS, consagrado grupo paulistano que oferece alternativa, apostando na construção de um espetáculo de densidade metafórica, refinada elaboração cênica e diálogo com as outras artes - fomentando a intermedialidade.

Inaugura-se a peça com quatro irmãos (Lírio, Camélia, Jacinto e Gardênia) em torno da mesa. Somos alertados de que se trata a ação: reunião para a qual todos foram convidados, mas nem todos apareceram. Apagam-se as luzes, voltamos ao passado: encontramos os pais dos quatro - Seu Calado e Dona Espera - conhecendo-se, namorando, casando-se, aumentando a família filho(a) a filho(a). Amplia-se a família, multiplicam-se os problemas: não há comida para todos. Com exceção de Camélia, os demais filhos saem de casa em busca de melhor qualidade de vida, a ela retornando, a pedido de quem ficou, quarenta anos depois. O pai morreu, a mãe morreu, Camélia então anunciará - a Jacinto e a Gardênia - a morte de Lírio, o único que postava cartas todos os meses de Nova Iorque, mandando, entre o papel cuidadosamente dobrado, cem dólares. Cem dólares mensais durante quarenta anos.

Aos poucos, as personagens mostram-se: Seu Calado vai de namorado apaixonado e gentil a marido e pai alcoólatra, encerrando a vida da família em violência cotidiana; Dona Espera submete-se não porque ela seja covarde, mas por deter o conhecimento prático de que o enfrentamento ou a resistência desaguariam no deslocamento da fúria contra os filhos. O pai espanca; a mãe contém as feridas. O pai sulca a terra - afinal, ele é coveiro; a mãe planta, aduba, tenta controlar as intempéries. Calado (Caladium) deveria ser uma planta colorida e de alegria; Espera (Esperança) é bela, cheia de espinhos e adota formas dependendo de como é cuidada. A união de duas plantas - duas flores? - deveria resultar em um jardim multicolorido, plural e revigorante. Entretanto, a planta incompleta - que é Seu Calado – floresce em jardim conturbado: Lírio, Camélia, Jacinto e Gardênia apresentam os mais diversos distúrbios. O símbolo de vida dessas seis flores (pai, mãe e filhos) deveria se comparar à uma das sete maravilhas do mundo (os Jardins Suspensos da Babilônia), mas se deteriora em perdas, quebras e irreversibilidades.

Como salientamos, Lírio, Jacinto e Gardênia saem de casa. Jacinto abandona a família e funda uma empresa de tecnologia digital cuja proposta é guardar, apagar ou criar memórias. Com a invenção, fica milionário: esquece dos pais e da irmã, permite-lhes morrer na miséria, envolve-se com políticos sem caráter. Gardênia também abandona a família. Quer a cidade grande. Com o tempo, enriquece como “influenciadora digital”, apronta seus trambiques por meio de discursos semelhantes aos de “coach” ou “mentores”. Lírio parte para Nova Iorque. Ocupa os empregos possíveis.

Os três permanecem longe de casa por quarenta anos. Quando voltam, Gardênia tem lapsos de memórias – Alzheimer? – e Jacinto aflora sua ambição a ponto, de sabendo da morte de Lírio, apossar-se dos quase cinquenta mil dólares enviados pelo irmão à mãe ao longo do tempo.

Assim como a pandemia de Covid 19, a partir de 2020, ou da peste invadindo a Europa, por volta de 1350, o simbolismo de quarenta anos – entre a saída e o retorno, ou quase retorno, dos irmãos – remete-nos à imagem daqueles que, perdidos no deserto, procuram a terra prometida. Quarenta anos não são quarenta dias ou quarenta semanas: para os que pensam, é tempo de reflexão; para os que não pensam, é período de sofrimento. Jacinto e Gardênia abandonaram a cidade natal para ganhar dinheiro e fama: atravessaram o deserto sem achar o Oásis da paz. Lírio também não encontrou as fontes almejadas, mas, diferente dos irmãos (e/i)migrantes, tentou apostar na arte como suporte.

Lírio. “Olhai os lírios do campo”, convocaria o escritor Érico Veríssimo. “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” (Mateus, 6: 28-29). Quando começou a frequentar a escola, queria ser poeta. Sensível, não suportou as chacotas com o beijo dado na bochecha de um colega. Saiu para os Estados Unidos. Lá sucumbiu ao câncer. A postagem mensal de cartas – com os famigerados cem dólares dentro – era uma estratégia para não ser esquecido. O menino que entrara na escola para se tornar poeta, faleceu sem dominar as nuances, as curvas, as métricas, as melodias e as potencialidades da palavra. Passou décadas em terras de Edgar Allan Poe sem conseguir escrever poesias, manifestando-se, nos diálogos sociais, menos pela oralidade do que pelo corpo. Em décadas no mesmo quarto, trocou a cama e o espelho. Jamais obteve a capacidade de, vislumbrando a mesma paisagem da mesma janela, criar um mundo ficcional. A vida passou sem a realização do sonho de ver seu nome na capa de um livro.

E Camélia? Camélia – sem atritar-se com os irmãos, o pai ou a mãe – dispara: “Importante não é apenas quem vai, é também quem fica”. Ela acompanha as mortes dos genitores. A mãe faleceu durante a pandemia de Covid. Ela continuou no barco. Viu a água entrar. Procurou saídas para mantê-lo íntegro. Segurou-se nos destroços – dela e dos outros – e manteve-se naquela casa/barco. Assim como Ellida Wangel – protagonista de A dama do mar, de Ibsen -, quando teve oportunidade de fugir, ela optou por enfrentar, permanecer e vencer. Eis a explicação do título da peça, já anunciada nas primeiras falas: todos convidados, quase todos compareceram. Contudo, os que se apresentam fisicamente,  perdem-se cognitivamente (Jacinto permitiu o extravio dos escrúpulos; Gardênia, o do passado, do presente e do futuro). São derrotados na balança da vida: Jacinto vende memórias felizes e familiares, entretanto não é nem feliz nem tem família (questionado, a ausência da esposa e dos filhos – não aparecem nem são mencionados ao longo da ação dramática – indica sua solidão); Gardênia perdeu a capacidade de discernimento entre realidade e fantasia, sensatez e delírio, som e mutismo. Lírio ainda tentou livrar-se do afogamento da vida, mas se tornou um poeta sem poesia: pedreiro que não sabe assentar tijolos, alfaiate que não coloca linha na agulha, cozinheiro que desconhece as regras de preparo e tratamento do peixe. Mas, Camélia...

Camélia permaneceu. E, ao contrário da Dama, de Alexandre Dumas Filho, saiu do palco, abandonou o camarote, esqueceu o teatro e mergulhou-se em algum lugar ao fundo da coxia. Assim como a flor, ela está integralmente pronta aos embates: adapta-se ao vaso, sobrevive na floresta. Seja no doméstico, seja no selvagem, ela nos lembrará: a presença é indispensável. Quando crianças, os quatro irmãos – as flores do pai coveiro – prometeram-se não se deixar. Mas, veio a vida...

Alguns aspectos técnicos são bem dosados. Demonstram a qualidade irretocável do espetáculo. O uso de recursos intermediais, mesclando som, imagem, luz e sombra em telas são interessantes. As telas fazem as vezes de garagem, de caixão (para o pai), de leito de morte na UTI (para a mãe), de anúncio de venda de sonhos, de histórias e memórias por meio da ação de uma boneca virtual.

A mudança no tom da voz, da postura corporal e facial, ao declamar formalmente as rubricas orientadoras das personagens, quebra a fixação do espectador: a quebra permite a percepção de que poético e racional sobrevivem lado a lado. São reforços para nos questionarmos: é possível que uma flor/pessoa sobreviva em ambientes agro/tóxicos? Flores sobrevivem quando mal tratadas, arrancadas da terra, pisadas? Como Seu Calado poderia exalar amor se, em vez de água para sua hidratação natural, ingeria cachaça/agrotóxico?

Memórias não são construídas no mundo virtual. São erigidas no mundo real com ações e, principalmente, presença. Eis o motivo de, ao fim, observarmos o mantra: menos tela, mais proximidade. Menos distância, mais presença (real).

Claramente, todo o espetáculo, como já mencionado, é de qualidade irretocável. Mas, a catarse do espectador – pelo menos, em mim – aconteceu quando mãe e filhos comeram pétalas brancas. Eu nunca passei fome. Minhas filhas nunca passaram fome. Recordei-me de minha avó Isaura, aos prantos, me contando que, ao conseguirem aprovação no vestibular de medicina e de engenharia na Universidade Federal da Paraíba na década de 1970, meus pais passavam o dia comendo frutas: ou almoçavam/jantavam ou pagavam as passagens de ônibus. A destreza de Dona Espera em conduzir os filhos a saciarem a fome com as pétalas é de tamanha beleza que um momento de desgraça (fome/falta de comida) se metamorfoseia em estrondo de altíssima beleza.

Concluo lembrando que, claro, as atrizes e os atores da montagem são fenomenais. Contudo, gostaria de destacar o trabalho das personagens de Seu Calado (vi, nos olhos dele, o desespero da brutalidade de quem, como ele revelará posteriormente, não sabe conciliar sufoco financeiro e maturidade de enfrentar a vida, transfigurando em arte a angústia do homem que, na iminência do fracasso, desponta à violência), de Dona Espera (que privilégio na condição de espectador, de leitor, de quem ama a arte dramática – em texto e em cena -, de pai e de filho sentir-me arrebatado pela sofisticação inigualavelmente poética da mãe transformando as pétalas brancas em refeição) e de Lírio (o poeta que queria ser lembrado na capa do livro, porém não teve tempo de talhar a palavra nem de arquitetar a poesia).

 

 

 

ESPETÁCULO: QUASE TODOS

Dramaturgia: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez

Direção: Rodolfo García Vázquez

Assistência de direção: Renatto Moraes

 

Elenco

Ivam Cabral: Lírio

Julia Bobrow: Camélia

Diego Rifer: Jacinto

Tai Zatolinni: Gardênia

Márcia Daylin: Dona Espera

Gustavo Ferreira: Seu Calado

André Lu: Nélio, Candinho, Padre e Fausto

Eduardo Chagas: Velho Antério, Baltasar, Vendedor de VR e Cliente 2

Gabi Flores: Madrinha Modesta, Dona Ângela Maria e Cliente 3

Thiago Ribeiro: Milo, Ronnie, Leto e Cliente 1

 

Cenografia: Thiago Capella

Design de laser, LED digital e video mapping: Thiago Capella

Confecção de cenários: Emerson Fernandes e João Bento

Montagem de cenário: Ademir Gazarolli e João Bento

Operação de vídeo e laser: Heyde Sayama

Produção audiovisual: Circulus Ópera

Iluminação: Flavio Duarte, Rodolfo García Vázquez e Thiago Capella

Operação de luz: Flavio Duarte

Figurino: Elisa Barboza, Gustavo Parreira e Jota Silva

Assistência de figurino: Emilia Lira

Adereços: Eduardo Chagas, Elisa Barboza e Emilia Lira

Visagismo: Maxime Weber

Modelagem: Lucas Maia

Preparação vocal e colaboração na criação da trilha: André Lu

Trilha sonora original: Felipe Zancanaro e Lea Arafah

Desenho de som: Felipe Zancanaro e Lea Arafah

Operação de som: Felipe Zancanaro e Lea Arafah

Fotografias: Andre Stefano e Tai Zatollini

Produção: Diego Rifer

Assistência de Produção: Gabriel Mello

Programação Visual: Tai Zatolinni

Textos para o programa: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez

Idealização: Os Satyros

Realização: Sesc São Paulo

 

DATA DA APRESENTAÇÃO: 15 DE MAIO DE 2026

LOCAL: ESPAÇO D’OS SATYROS

 

 

VICENTONIO REGIS DO NASCIMENTO SILVA - Doutor em Literatura pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde desenvolveu tese sobre as representações do feminino na obra de Henrik Ibsen (1828-1906). É Publisher da editora JASVENS.



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