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O novo desafio da Comunicação Empresarial: ser acreditado, não apenas ouvido

01/07/2026 - Confira o artigo de William Asaph Yanraphel


O novo desafio da Comunicação Empresarial: ser acreditado, não apenas ouvido

O principal desafio da comunicação empresarial contemporânea não é a falta de canais ou de alcance. Empresas hoje têm à disposição mais meios de se comunicar do que em qualquer outro momento da história: redes sociais, newsletters, podcasts, vídeos, comunidades online, relações com a imprensa, marketing de conteúdo. O alcance nunca foi tão acessível. E, ainda assim, comunicar com eficácia nunca foi tão difícil.

O motivo é simples de enunciar e complexo de resolver: a dificuldade já não está em fazer a mensagem chegar, mas em fazer com que ela seja compreendida, credibilizada e interpretada da forma pretendida. Vivemos em um ambiente saturado de conteúdo, desinformação, algoritmos e, mais recentemente, inteligência artificial generativa — um cenário em que a audiência não sofre de falta de informação, mas de dificuldade crescente em discernir o que é confiável.

Esse paradoxo já é bem documentado no Brasil: o Índice de Confiança Social (ICS), pesquisa anual conduzida pela Ipsos-Ipec desde 2009, registrou em 2025 o menor patamar de confiança institucional desde 2018 — com queda generalizada em governo, mídia, bancos, partidos políticos e também empresas. No mesmo levantamento, a confiança em pessoas e grupos próximos (família, amigos, vizinhos) ficou em 62 pontos, acima dos 54 pontos atribuídos ao conjunto das instituições. Um padrão semelhante já havia sido identificado pela Confederação Nacional da Indústria, cujos estudos sobre confiança interpessoal mostram crescimento consistente da confiança nos colegas de trabalho ao longo da última década. Na prática, isso significa que uma empresa pode ter um departamento de comunicação robusto e investimento substancial em mídia paga e ainda assim falhar em construir credibilidade, porque a credibilidade não é mais distribuída do alto para baixo — ela é mediada por relações de proximidade e por algoritmos que decidem o que cada pessoa vê.

Esse segundo fator merece atenção própria. Os algoritmos das plataformas não são neutros: eles selecionam, hierarquizam e filtram conteúdo segundo critérios de engajamento, não de relevância ou veracidade. Uma comunicação empresarial bem escrita, factualmente precisa e estrategicamente correta pode simplesmente não chegar a seu público, enquanto uma versão distorcida ou descontextualizada da mesma informação circula livremente. A empresa deixou de ser a única narradora da sua própria história — e muitas vezes nem é a narradora mais ouvida.

A inteligência artificial generativa adiciona uma camada adicional de complexidade. Conteúdos sintéticos — textos, vozes, vídeos — já são suficientemente convincentes para confundir o público sobre o que uma marca ou um executivo de fato disse. Empresas de segurança digital que atuam no Brasil já documentam tentativas de fraude com vozes sintéticas de executivos direcionadas a transferências financeiras, e o risco reputacional de uma empresa ser alvo de conteúdo sintético malicioso deixou de ser hipotético.

Diante disso, a comunicação estratégica precisa mudar de função. Ela deixa de ser, sobretudo, uma disputa por atenção — métrica que sempre foi mensurável, mas cada vez menos suficiente — e passa a ser uma disputa por significado: a capacidade de uma organização ancorar, de forma consistente e verificável, o sentido que o público atribui às suas ações e mensagens. Isso exige mudanças concretas:

Investir em canais próprios e não apenas alugados. Newsletters, comunidades e relações diretas com públicos específicos protegem a empresa da volatilidade algorítmica das plataformas de terceiros.

Transformar colaboradores em vozes confiáveis. Como mostram os próprios dados de confiança social, mensagens vindas de pessoas próximas — incluindo funcionários — tendem a ser mais credíveis do que comunicados corporativos formais. Programas estruturados de employee advocacy deixam de ser tática de marketing e passam a ser infraestrutura de credibilidade.

Construir capacidade de verificação rápida. Times de comunicação precisam de protocolos para identificar e responder a conteúdo sintético ou desinformação envolvendo a marca antes que a narrativa se consolide sem resposta.

Priorizar consistência factual de longo prazo sobre picos de visibilidade. Significado se constrói por repetição coerente ao longo do tempo, não por campanhas isoladas de alto impacto.

Empresas que tratam comunicação como distribuição de mensagens continuarão competindo por um recurso cada vez mais escasso e mal mensurado: a atenção bruta. Empresas que entenderem comunicação como construção deliberada de significado — coerente, verificável e ancorada em relações de confiança reais — estarão competindo em um terreno mais estável e, no longo prazo, mais defensável.

Fontes citadas: Índice de Confiança Social (ICS) 2025, Ipsos-Ipec; Retratos da Sociedade Brasileira — Confiança Interpessoal, Confederação Nacional da Indústria (CNI).

 

*William Asaph Yanraphel é jornalista formado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado com MBA em Gestão Estratégica Empresarial pela Universidade de Marília (Unimar) e pós-graduando em Gestão e Docência no Ensino Superior pela Unoeste. Com mais de 10 anos de experiência na intersecção entre o setor comercial e a comunicação organizacional, possui sólida trajetória em assessoria de imprensa e marketing. No telejornalismo, atua como repórter, editor de texto e apresentador.



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