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Educação Midiática: A vacina contra a desinformação que o Brasil ainda não tomou

23/05/2026 - Confira o artigo do jornalista William Asaph Yanraphel.


Educação Midiática: A vacina contra a desinformação que o Brasil ainda não tomou

Há uma guerra silenciosa sendo travada nas telas de milhões de brasileiros. Ela não acontece em campos de batalha, mas nos grupos de família do WhatsApp, nas timelines do Instagram e nos vídeos virais do TikTok. É a guerra contra a desinformação — e, por enquanto, estamos perdendo feio.

O Brasil ocupa posição vergonhosa nos rankings globais de vulnerabilidade a fake news. Somos um país de mais de 210 milhões de pessoas com altíssima penetração de smartphones e redes sociais, mas com educação midiática praticamente inexistente nos currículos escolares. Esse vácuo não é um acidente; é uma negligência histórica que custa caro — em vidas, em democracia, em saúde pública.

A raiz do problema está na escola — ou, mais precisamente, na ausência dela nessa discussão. Quando perguntamos a uma criança de 12 anos como ela sabe se uma notícia é verdadeira, a resposta mais comum é: “porque minha mãe me mandou” ou “porque tem muitos likes”. Isso não é culpa da criança. É culpa de um sistema educacional que, durante décadas, tratou a leitura crítica de mídia como assunto de jornalistas — e não de cidadãos.

A Base Nacional Curricular Comum (BNCC) avançou ao inserir o pensamento crítico como competência transversal, mas a implementação nas escolas públicas segue tímida e fragmentada. Professores não recebem formação específica para ensinar literacia midiática. Livros didáticos ainda ignoram o ecossistema digital como objeto de análise. E os alunos chegam ao ensino médio sem saber distinguir um veículo jornalístico de um canal de desinformação organizada.

Não se combate o fogo com mais fogo, e tampouco se combate a desinformação com mais conteúdo. Combate-se com cidadãos capazes de pensar antes de compartilhar. Países como Finlândia, Estônia e Portugal já incorporaram a educação midiática de forma sistêmica. Não como uma disciplina isolada chamada “Fake News 101”, mas como habilidade transversal: ensinada em Língua Portuguesa quando se analisa a diferença entre um editorial e uma reportagem; em Ciências, quando se discute a negação climática; em História, quando se estuda como a propaganda moldou guerras.

Na prática, significa ensinar estudantes a identificar a origem de uma informação, verificar a data de publicação, cruzar fontes, reconhecer gatilhos emocionais em títulos sensacionalistas e entender os interesses econômicos e políticos por trás de cada veículo. Significa também ensinar sobre os algoritmos — como eles criam bolhas de confirmação, amplificam o conteúdo raivoso e monetizam a indignação.

Seria tentador — e ingênuo — concluir que a solução é afastar os jovens das redes sociais. Além de impossível, seria contraproducente. As plataformas digitais são o espaço público do século XXI. Banir não educa; marginaliza. A pergunta certa não é “como tirar os jovens das redes?”, mas “como as redes podem ser usadas como laboratório de verificação crítica?”. Algumas experiências pedagógicas brasileiras já mostram que é possível transformar o TikTok numa ferramenta de letramento, o Instagram em canal de checagem colaborativa e o YouTube em arquivo histórico para análise de narrativas.

Projetos como o “Escola de Dados” e iniciativas de agências de fact-checking como Agência Lupa, AosFatos e Comprova já desenvolvem materiais didáticos gratuitos. O problema é que eles dependem de professores proativos, conectados e com tempo — um trio raro nas escolas públicas sobrecarregadas do Brasil.

O que se defende aqui não é apenas uma reforma curricular, mas uma mudança de paradigma. O Estado brasileiro precisa, em primeiro lugar, incluir a literacia midiática como componente obrigatório da formação docente inicial e continuada. Em segundo, financiar a produção de materiais didáticos digitais, atualizados e contextualizados para a realidade brasileira. Em terceiro, criar parcerias com as plataformas digitais para que o próprio ambiente das redes incorpore fricções que encorajem a verificação antes do compartilhamento.

As big techs têm obrigação legal e moral de colaborar. Mas não podemos terceirizar para o Vale do Silício a responsabilidade de formar cidadãos brasileiros. Isso é tarefa do Estado, da escola e da família — nessa ordem de responsabilidade institucional. Uma geração que sabe questionar uma fonte é infinitamente mais perigosa para os demagogos do que qualquer lei de combate às fake news.

A pandemia de Covid-19 nos mostrou, com clareza brutal, o que acontece quando a desinformação encontra uma população sem ferramentas críticas: vacinas rejeitadas, tratamentos ineficazes propagados, mortes evitáveis. O mesmo fenômeno se repetiu nas eleições, na crise climática, nas discussões sobre segurança pública. A desinformação não é um problema tecnológico. É um problema de formação humana. E formação humana — desde Anísio Teixeira, desde Paulo Freire — é responsabilidade da escola pública, democrática e de qualidade.

Enquanto o Brasil não levar isso a sério, continuaremos assistindo, impotentes, ao espetáculo de cidadãos bem-intencionados destruindo democracias com um clique no botão “encaminhar”.

 

*William Asaph Yanraphel é jornalista formado pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), pós-graduado com MBA em Gestão Estratégica Empresarial pela Universidade de Marília (Unimar) e pós-graduando em Gestão e Docência no Ensino Superior pela Unoeste. Com mais de 10 anos de experiência na intersecção entre o setor comercial e a comunicação organizacional, possui sólida trajetória em assessoria de imprensa e marketing. No telejornalismo, atua como repórter, editor de texto e apresentador.



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