O banquete no Eden
24/04/2026 - Confira o artigo do advogado Vicentonio Regis do Nascimento Silva
Quando o teórico Umberto Eco (1932-2016) ensina o(a) leitor(a) - principiante, experiente ou profissional - a ler, salienta que, diante do texto (que também pode ser desenho, escultura, música, pintura, peça, filme etc), toda interpretação é possível, mas nem toda interpretação é válida. Dessa maneira, não diria que se trata de limites (porque, na limitação, criamos algemas e jogamos as possibilidades numa camisa de força), mas de orientações. Com “O banquete no Éden”, o(a) espectador(a) desavisado(a) pode entrar em conflito consigo mesmo(a) quando imagina tratar-se de algo delicado. O primeiro aviso da peça: se o(a) espectador(a) sentir-se desconfortável, deve levantar a mão para ser retirado(a). O aviso é importante. Uma ou outra vez, o(a) espectador(a) pensará em pedir socorro. Mas, uma sugestão: mesmo apreensivo(a), continue até o fim do espetáculo.
Os primeiros (quinze, vinte, trinta?) minutos são destinados à performance corpóreo-musical. Os atores iniciam a peça sobre uma mesa. Cada um(a) deles(as) segura um manjar, posteriormente exposto à plateia. A partir desse momento, o frenesi toma conta dos corpos sob a miscelânea de sons: conflitos bélicos, trechos de óperas, fragmentos de música clássica e atuação de cantores brasileiros, entre estes, tive a impressão de ter ouvido Caetano Veloso.
Passando à fase seguinte, os diálogos - apoiados em forte performance e em intenso jogo de luz - aparecem. Somos apresentados ao conturbado mundo das personagens, levantando dúvidas de uma parcial escolha das tradições: um banquete deve ser de inclusão ou de exclusão? Somos todos(as) convidados(as) a participar dele? Se estamos tratando de um banquete no Éden - o paraíso conhecido por todos, inoculado nas nossas memórias intelectuais e afetivas - por que esse paraíso nos incomoda?
As respostas surgem nas falas e nos diálogos: de imediato, as personagens reclamam da divisão entre “baixo” e “alto”, diferenciando o inferno do paraíso; em seguida, retomando essa mesma diferenciação, são discutidos o racismo, a homossexualidade, a misoginia, o feminismo (e, dentro do feminismo, as peculiaridades enfrentadas por mulheres brancas e mulheres negras). Em um determinado momento, uma das personagens explica o motivo de o homem estar por cima - tanto no espaço cênico quanto no social e particular - da mulher, demonstrando o quanto, no cotidiano, as construções hierárquicas consolidam-se nos símbolos. Em outro momento, o discurso da mulher negra, intencionalmente ignorado na sociedade, evidencia as divergências escondidas: não há intenção de deslegitimar o discurso feminista, mas de identificar suas nuances, listar os problemas, estudar hipóteses para solucioná-los. Tanto o texto quanto a performance são excelentes. O diálogo com Deus é a melhor parte.
O(a) espectador(a) não vê, nem ouve Deus. A divindade e as atrizes/os atores mantêm-se em espaços distintos: as atrizes/os atores estão na parte inferior; Deus, na superior. Ao olhar para cima, as personagens escancaram o medo pelas feições, neutralizam os movimentos do corpo e baixam o tom de voz. Sabe-se quem manda. Sabe-se quem obedece.
Há dúvidas acerca das características divinas: seria realmente onipresente? Talvez não. Seria integralmente espírito? Quem sabe? De um ou de outro modo, quando não se manifesta por meio de trovões, Deus manifesta-se por um orelhão, envolto pelo protetor amarelo, telefone vermelho e grande. Há conversas entre o sagrado e o profano. O telefone público – provavelmente os(as) mais jovens o desconheçam pela onipresença do celular e da internet – toca de forma efusiva: a volta ao passado – por meio do orelhão – é um enterro da contemporaneidade divina em nosso cotidiano?
As performances – acompanhadas de pontual sonoplastia – vão se desdobrando concomitantemente aos diálogos e, por meio dos diálogos, identificamos Adão, Eva e as demais personagens – “reais” e “apócrifas” – da criação da humanidade. Testemunhamos Eva jogar, na cara do público, ser uma mulher negra a responsável pelo pontapé do início da vida. A mesma Eva chora – diante de um Adão, talvez indiferente, talvez alheado, talvez medroso – pela morte dos filhos, salientando a dor descomunal e profana a que nos submetemos.
Dois importantes recursos cênicos chocam o(a) espectador(a): a visão da comida e o som do sibilo. Há um ator perspicaz (Well Nascimento): fala pouco, percorre o palco, come como um bicho. Cada vez que come, fala cuspindo ou, na pressa, deixa a comida cair da boca. É verdade que outras personagens em cena fazem o mesmo, mas este ator, ora ao fundo, ora à frente, circundando a mesa ou em cima dela, sempre olhando e de vez em quando cochichando com um ou outro, é o poderoso incômodo: não temos dúvida de que ele representa o maligno, até mesmo quando tira o telefone do gancho e, olhando para cima, troca ideias com Deus.
De outro lado, as personagens passam boa parte do tempo falando por meio de sibilos, aproximando-se do som produzido pelas cobras e nos remetendo à serpente que, na tradição cristã, expulsou a todos(as) nós do Paraíso, lançando-nos em um mundo de pecado, dor, sofrimento, disputas, exclusão. Logo, o sibilo nos mostra que, mesmo quando envolvidos e aparentemente tomados pelo sentimento de piedade pelo(a) outro(a), as personagens estão, em verdade, em verdade, vos digo, desenhando o bote para a cartada fatal.
Começamos lembrando Umberto Eco e, com ele, finalizamos: toda interpretação é possível, mas nem toda interpretação é válida. E, ao fim da apreciação do espetáculo, construído na performance invejável e no impacto indiscutível a quem o assiste, regurgita a convicção de que o banquete é indigesto pela percepção de que, desde sempre, fomos metidos em um mundo de desigualdades, habilmente mantidas e aparentemente insuperáveis.
ESPETÁCULO: O BANQUETE NO ÉDEN
TEXTO: Muriel Vittorea
DIREÇÃO: Muriel Vittorea
PRODUÇÃO: Grupo Trapo
CLASSIFICAÇÃO: 18 anos
ELENCO: Bruno Macedo/Ismael Silva (Lior), Gui Vieira (Caim), Lis Nunes (Lilith), Nalu Oliveira (Sara) Pedro Henrique Meeta (Adão), Suellen Santos (Eva), Zé Carlos de Oliveira (Abel) e Well Nascimento (Umbra).
DATA DA APRESENTAÇÃO: 28 DE MARÇO DE 2026
LOCAL: NOSSO CANTO ESPAÇO DE ARTE E CULTURA – SÃO PAULO/SP.
*VICENTONIO REGIS DO NASCIMENTO SILVA - Mestre em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Doutor em Literatura pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde desenvolveu tese sobre as representações do feminino na obra de Henrik Ibsen (1828-1906). É Publisher da editora JASVENS e apreciador de teatro.
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