Bonitinha, mas ordinária
16/04/2026 - Confira o artigo do advogado Vicentonio Regis do Nascimento Silva.
Boa parte das peças de Nelson Rodrigues (1912-1980) realça a podridão das famílias conservadoras do século 20, escancarando, de maneira inteligente, sarcástica e simples, as contradições entre o público (polido, dedicado, comportado) e o privado (em que as violências ultrapassam os limites da sensatez). Com “bonitinha, mas ordinária” não é diferente.

O pai - empresário rico e devasso - deseja arranjar casamento para a filha que aparentemente sofreu ataque de cinco homens. A busca por um homem pobre - um contínuo que vive com a mãe, afundado em dívidas e em busca de concretização de amor com a vizinha - simboliza a compra de um genro: a tradicional família brasileira da suposta classe média fecha as portas e impede o acolhimento de Maria Cecília (Sabrina Larisse), a menina que “perdeu o padrão” desejável.
Edgard defende a moralidade - e o amor - como alicerce de casamento, mas não consegue livrar-se do cheque de cinco milhões dado a ele pelo (futuro?) sogro. O (futuro?) sogro coloca sua moralidade à prova: se ele realmente é honesto, rasgará o cheque. Mas, como rasgar um cheque de cinco milhões e abrir mão de um casamento que solucionará seus problemas financeiros?
Entre as dúvidas de rasgar o cheque, de casar com Maria Cecília e sair da miséria, Edgard tenta aproximar-se de Ritinha (Naiara de Castro). Trabalhando com freiras, Ritinha batalha para casar as irmãs e cuidar da mãe enlouquecida. Dentro da moral e dos bons costumes, rechaça as aproximações de Edgard. Afinal, também ela é uma defensora da tradicional família brasileira.
O desenvolvimento da ação nos leva às verdades (tão escondidas pelas famílias tradicionais): Maria Cecília e Ritinha não são quem pensamos. Jamais houvera violência sexual contra Maria Cecília. Amante de Peixoto - a quem também se atribui a alcunha de Cadelão -, María Cecília pediu ao parceiro o encontro quíntuplo. Ritinha, por sua vez, quando de uma das tentativas de Edgard, explode: quer algo? Terá de pagá-la.
Considerando a multiplicidade do texto literário, interligam-se as “bonitas” e as “ordinárias” Maria Cecília e Ritinha. Ambas, na mesma intensidade e em idêntica proporção, valem-se de seus corpos: uma usa o corpo para subverter (Maria Cecília, em busca do prazer, catapulta-se à condição de sujeito); a outra emprega o corpo para se submeter (Ritinha, na ausência de prazer, torna-se objeto). Entre a força do sujeito (Maria Cecília) e a do objeto (Ritinha) sobressai a fraqueza de Edgard, perdido em um universo moral contraditório e arcaico.
Como não era de se esperar, a peça chega ao fim com Edgard rasgando o cheque, juntando-se a Ritinha e dando indícios de reconstrução romântica: risca-se o passado e desenha-se o futuro.

É interessante ressaltar que, ao longo da ação, Edgard proclama, retoma e rechaça uma frase atribuída a Otto Lara Resende: “o mineiro só é solidário no câncer”. Com ela, as demais personagens passam a transformar as cenas, entrecortando momentos de humilhação e de alucinação, redimensionando sua importância e seu papel social.
Importante destacar: há uma diferença entre a dramaturgia (texto teatral) e o teatro (texto teatral levado ao palco). Ler o texto - seja em que suporte for - é fácil. Damos as instruções a nós mesmos e as seguimos à risca. Porém, há esforço contínuo e concentrado para dar vida à personagem e ao espaço cênico. No caso do espetáculo “Bonitinha, mas ordinária”, cuja penúltima apresentação da temporada aconteceu na sexta-feira, 27 de março de 2026, no Teatro de Arena Eugenio Kusnet, na capital paulista, observa-se o acerto do misto do jogo de luz, de música - intercalação de instrumentos ao vivo acompanhando a cantora ou o sonoplasta - e de reconfiguração do espaço. Os flashbacks - recurso dramatúrgico com forte inspiração ibseniana, aplicado por Nelson Rodrigues ao inaugurar o modernismo teatral brasileiro -, cumpriram rigorosamente seu papel cênico, possibilitando ao(à) espectador(a) a retomada de lembranças que desenhavam a orgia de Maria Cecília ou a violência a que se submetia Ritinha dentro do prédio dos correios.

Não há dúvidas de que todas as atrizes e todos os atores desempenharam brilhantemente seus papeis, mas Márcio Araújo (Peixoto/Cadelão) e Naiara de Castro (Ritinha) encarnaram-se nas personagens: eu não sabia se oferecia indicações de eventuais maridos para Maria Cecília, cobrando uma comissão de êxito, ou se alertava Ritinha a parar de ser besta, estimular as irmãs a aproveitar a vida e libertar-se das amarras que reduzem as gloriosas mulheres - da cena, do texto, da vida - à condição de objeto, de lata de lixo de homens estúpidos.
Teremos nova temporada?
ESPETÁCULO: OTTO LARA RESENDE OU BONITINHA, MAS ORDINÁRIA OU NO BRASIL TODO MUNDO É PEIXOTO
TEXTO: NELSON RODRIGUES
DIREÇÃO: NELSON BASKERVILLE
PRODUÇÃO: OCANGA PRODUÇÕES
DATA DA APRESENTAÇÃO: 27 DE MARÇO DE 2026
LOCAL: TEATRO DE ARENA EUGENIO KUSNET - SÃO PAULO/SP
*VICENTONIO REGIS DO NASCIMENTO SILVA - Mestre em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Doutor em Literatura pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde desenvolveu tese sobre as representações do feminino na obra de Henrik Ibsen (1828-1906). É Publisher da editora JASVENS e apreciador de teatro.
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