Música Clássica na Semana Santa?
01/04/2026 - Confira o artigo do advogado Vicentonio Regis do Nascimento Silva, apreciador de música clássica.
Por volta dos 15 anos, comecei a ouvir os grandes ícones da música clássica, em discos compactos (CD), vendidos em coleções nas bancas. Comprava um fascículo semanal e, com ele, Wagner, Mozart, Beethoven, Ravel... Entre os discos, surgiu o de Bach. Eu já lera seu nome nos principais jornais e revistas. Johann Sebastian Bach (1685-1750), 226 anos após o último suspiro, conseguiu superar a morte do CD, das coleções, das bancas, dos jornais e da revistas impressas, permanecendo no programa dos principais concertos mundo afora.
Mas, venhamos e convenhamos, ouvir Bach exige dedicação, paciência e maturidade. É um aprendizado doloroso. Quando, na condição de iniciantes, ouvimos Wagner, Mozart, Beethoven ou Ravel, encantados pelo ritmo pulsante e crescente de suas obras, achamos Bach enfadonho.
Quem nunca ouviu o trecho de “A cavalgada das Valquírias” (clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Xu7Q7Pj1VjM&list=RDXu7Q7Pj1VjM&start_radio=1), de “A flauta mágica” (clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=YuBeBjqKSGQ), da “Ode à alegria” (clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=izt1UrNzRj0&list=RDizt1UrNzRj0&start_radio=1) ou do icônico “Bolero” (clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=_5eF-oePNw0&list=RD_5eF-oePNw0&start_radio=1)? Quem nunca, ouvindo essas músicas, ergueu as mãos e, em tom teatral, passou a reger orquestra imaginária, acelerou a batida do pé, improvisou o toque dos dedos em uma panela, na mesa ou na direção do carro? A música - como arte em geral - produz o efeito da transformação imediata. Mas, Bach... Bach talvez não seja tão pulsante e, por distanciar-se do ritmo da vida acelerada, romântica e extática, acabe relegado ao fundo do baú. Relegado ao fundo do baú até que, com a mudança de tempo, de espaço, de mutilações, de medos, de sonhos, seus acordes subtraem da realidade a expressão autêntica, mesclando arte e vida.
Talvez por esse motivo, ouvi-lo durante a Semana Santa - como aos demais compositores - seja um exercício de fé e de estética. Para quem é religioso, ouvir Bach é reverência, compaixão e comemoração à passagem de Cristo. Para quem não é religioso, é porto precioso no oceano dos sons e nos desertos dos silêncios. Cristão ou não cristão, o(a) ouvinte pode deleitar-se com sua obra-prima.
É preciso conhecer acordes, partituras, ritmos, arranjos, tempos e outros detalhes musicais? Claro que não. Claro que sim.
Claro que o desconhecimento NÃO é obstáculo para quem deseja ouvir música clássica. De acordo com Rubem Alves, música clássica é aquela impregnada em nossa memória e em nosso coração. Se a ouvimos e a guardamos conosco, ela é clássica.
Obviamente que SIM: o conhecimento de partituras, ritmos, arranjos, tempos e outros detalhes musicais ajuda a se deleitar com mais profundidade nos labirintos dos acordes.
Com ou sem conhecimento em música clássica, o interessante é escolhê-la, ligar o som - preferencialmente em alto volume, imitando os jovens - para que não se perca nenhum detalhe, escolher sua bebida (vinho, refrigerante, suco de laranja, chá ou café?) e se entregar às sensações.
Que tal um teste no feriado da Páscoa? Vamos ouvir não apenas Bach, mas também outros grandes compositores? Vamos às sugestões?
Para quinta-feira e Sexta-feira da Paixão, recomendamos as seguintes peças:
- De Johann Sebastian Bach, “A paixão segundo São Matheus” (clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=j4Efeafzv9c&list=RDj4Efeafzv9c&start_radio=1)
- De Johann Sebastian Bach, “A paixão segundo São João” (clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=3VjBXhqxm20&list=RD3VjBXhqxm20&start_radio=1)
- De Joseph Haydn (1732-1809), “As sete últimas palavras do Nosso Salvador na Cruz” (clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=-JgG6XfT_p0&list=RD-JgG6XfT_p0&start_radio=1)
Para o sábado de aleluia, provavelmente a mais indicada seja a peça de George Friedrich Handel (1685-1759), intitulada “O messias” (clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Gs60o3SZKK0&list=RDGs60o3SZKK0&start_radio=1).
Por fim, para o domingo de Páscoa, que tal “Ressureição”, de Gustav Mahler (1860-1911), interpretada pelo inebriante maestro Leonardo Berstein (1918-1990)? (clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=As5s3K9z0wk&list=RDAs5s3K9z0wk&start_radio=1).
Para quem é religioso, excelente páscoa e boa música.
Para quem não é religioso, formidável música.
VICENTONIO REGIS DO NASCIMENTO SILVA - Mestre em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Doutor em Literatura pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). É Publisher da editora JASVENS e apreciador de samba, MPB, música clássica e ópera.
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