Cultura em movimento: encontro reúne artistas e expõe fragilidade de políticas públicas em Paraguaçu
26/03/2026 - Encontro promoveu reflexão sobre o papel da cultura como instrumento de transformação social.
No dia 21 de março de 2026, artistas, produtores e agentes culturais de Paraguaçu Paulista se reuniram no encontro “Cultura Viva em Prosa – Papo PNAB”, realizado na Sala João Grilo, no Ponto de Cultura Salão Cultural. A atividade se consolidou como um espaço de formação, escuta e articulação coletiva e também como um retrato direto dos desafios enfrentados pela cultura no município.

O encontro teve início com uma reconstrução histórica das políticas públicas culturais no Brasil, com destaque para a Política Nacional Cultura Viva, reconhecida como uma das mais importantes iniciativas de valorização das expressões culturais nos territórios. A apresentação foi conduzida por Nelson Silva, agente Cultura Viva, que percorreu desde a Constituição de 1988 até os dias atuais, reforçando que cada conquista no campo cultural é fruto de mobilização social e construção coletiva.
Na sequência, o debate avançou para a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), criada durante a pandemia de Covid-19 e hoje estruturada como política permanente de financiamento à cultura. Apesar dos avanços, os participantes destacaram que sua efetividade depende diretamente da participação social, da transparência e da capacidade de gestão por parte dos municípios.

Cultura como resistência
Um dos momentos centrais do encontro foi a reflexão sobre o papel da cultura como instrumento de transformação social. A partir do texto “Cultura como forma de resistência”, do gestor cultural Célio Turino, os participantes debateram a arte como força ativa na disputa de sentidos e na construção de novas realidades.
A discussão também dialogou com o pensamento de Aimé Césaire, evocando a ideia de que a arte deve dar voz às populações historicamente silenciadas. A citação “Minha boca será a boca das desgraças que não têm boca” sintetizou o papel político do fazer artístico.

Análise de dados e inconsistências
No segundo bloco, o grupo analisou dados da execução da Política Nacional Aldir Blanc no município, a partir do painel oficial do Ministério da Cultura. Além de apresentar informações dos ciclos 1 e 2, o momento teve caráter formativo, ensinando os participantes a acessar e interpretar dados públicos.
A análise coletiva revelou inconsistências preocupantes, como a ausência de editais previstos no Plano de Aplicação de Recursos, informações divergentes da realidade local e a indicação de um conselho de cultura ativo, desconhecido pela própria classe artística.
Outro ponto destacado foi a demora nas publicações oficiais relacionadas ao novo Cadastro Municipal de Artistas, que já se encontra em sua segunda errata, além da ausência de editais referentes ao ciclo 2 da PNAB, mesmo com recursos já disponíveis.
Para os participantes, esses problemas evidenciam um distanciamento entre o planejamento institucional e a realidade vivida pelos agentes culturais do município.

Presença no debate e cobrança por transparência
O encontro contou ainda com a presença do vereador Daniel Faustino, que contribuiu com intervenções ao longo do debate. Em sua participação, destacou a importância de aprofundar a compreensão sobre as políticas públicas culturais, tanto no âmbito local quanto nacional, dialogando diretamente com a Política Cultura Viva e a Política Nacional Aldir Blanc.
Sua presença foi compreendida como uma oportunidade de interlocução direta com o poder público. No entanto, os participantes reforçaram a necessidade de que essa relação se traduza em ações concretas, pautadas pela transparência, pela participação social e pelo diálogo efetivo com os coletivos culturais do município.
O evento, amplamente divulgado, teve caráter aberto e gratuito, evidenciando o interesse da classe artística e da comunidade em ocupar espaços de formação e debate, assumindo um papel protagonista na construção das políticas culturais.
Ainda assim, um dos pontos destacados durante o encontro foi a ausência de outros representantes do poder público. A agente cultural Márcia Jaques chamou atenção para essa lacuna, ressaltando a importância da presença institucional nesses espaços de escuta e construção coletiva.

Classe artística denuncia abandono
A etapa de escuta foi marcada por críticas contundentes à gestão cultural do município. Artistas relataram falta de diálogo, ausência de equipe técnica qualificada e descontinuidade de projetos.
A agente cultural Márcia Jaques apontou a inexistência de uma política estruturada e alertou para riscos na execução de recursos públicos. Já a artesã Francine destacou a burocracia e a falta de reconhecimento do setor como produção cultural, e não apenas atividade comercial.
Na área da dança, a bailarina Aline Cestari denunciou o encerramento de projetos sociais e a falta de apoio básico para manutenção das atividades. O fechamento prolongado do Cine Teatro Lucila Nascimento também foi citado como símbolo do abandono dos equipamentos culturais.
Outros participantes alertaram ainda para o risco de perda de patrimônio cultural, incluindo o possível desaparecimento de acervos e o abandono de espaços históricos da cidade.
Encaminhamentos e mobilização
Ao final do encontro, foram definidos diversos encaminhamentos coletivos. Entre eles, a continuidade dos encontros formativos do Cultura Viva em Prosa, consolidando o espaço como instância permanente de articulação e formação política da classe cultural.
Também foi deliberada a necessidade de sistematizar, em formato documental, todos os relatos, denúncias e apontamentos surgidos durante o encontro. O material dará origem a um documento unificado, em formato de manifesto, a ser protocolado junto ao poder público municipal.
Outro encaminhamento importante foi a organização de uma próxima atividade ampliada, com maior mobilização da classe artística e foco no aprofundamento do debate político sobre as políticas públicas culturais, buscando acúmulo crítico e construção coletiva de propostas.
A avaliação final foi clara: a cultura em Paraguaçu Paulista enfrenta um cenário de fragilidade estrutural, mas também demonstra uma forte capacidade de mobilização.
O momento, como apontaram os participantes, exige organização, continuidade e ação.

Fonte: Ponto de Cultura/ Divulgação
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